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fico suspenso na expectativa

de um pensamento que rasgue o tempo

e me traduza o sonho das árvores



terça-feira, 17 de maio de 2011

ACORDAR

Esperas as madrugadas,
lavadas e frescas,
com aromas de despertados desejos
que virão no amanhã

Há um bailado subtil
libertado pelas palavras
num compasso indefinido ...

Na melodia que se insinua
há um acordar de descobertas
abandonadas em horizontes antigos,
como um anseio que se escapa,
na vertigem do teu sentir


JCE, 05/2011

IMENSO

O olhar contorna o horizonte liquefeito
desse mar que enfeitiça o tempo …

… imenso …
na vastidão verde-água derramada,
no entardecer que se prolonga …

Reflexos ouro-prata refulgem
no abraço das ondas,
adorno de viagens tranquilas
rumo a costas insuspeitas

No marulhar das águas
ecoam pensamentos
largados ao sabor de correntes longínquas ...


JCE, 05/2011

sexta-feira, 8 de abril de 2011

SENTIR

As palavras hesitam
no abraço das madrugadas do poema.

Deslizam nas linhas nascentes,
fugazes e tímidas,
como uma jovem que se desnuda pela primeira vez
perante o seu desejo.

Palpitante,
o papel aconchega o seu espaço,
para nele acolher o derrame virginal do sentir dos poetas.

Do vazio,
surge sentido,
na recolha dos sentidos,
em silhuetas esboçadas na procura de significados.

O poema é sentir.
Sinto.


JCE 04/2011

quinta-feira, 7 de abril de 2011

TRANSPOSIÇÃO

Sinto o toque das palavras
que resvalam do teu sentimento

... ténues ecos do teu pensamento ...

Desperta em mim a sensação
de que escrevo o teu sentir
subtilmente insinuado
nas imagens que deixo partir


JCE 04/2011

LIMBO

Adormeço as tuas angústias
no ar rarefeito das imagens perdidas,
tornadas orfãs,
acolhidas entre pensamentos sem-abrigo,
ectoplasmas translúcidos que povoam os becos perdidos das ilusões

Lá,
deambulam os ecos das almas que se perderam na cegueira da ira.


JCE 04/2011

terça-feira, 15 de março de 2011

COMO FOI QUE DE NÓS NOS ESQUECEMOS

Como foi que de nós nos esquecemos?

Quando foi que nos deixámos possuir,
por outras emoções,
por outro rir,
que nos distanciou, logo a seguir?

Onde foi, amor, que nos perdemos,
calando os corações?


Poema de VITOR CINTRA, in "Nas Brumas da Magia"


terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

FRUTO PROIBIDO

Um murmúrio que desperta os teus anseios
um olhar que te afaga as sensações
um resquício luminoso
de momentos só sonhados ...
um bailado de vontades impossíveis ...

Uma brisa de palavras encerradas
no segredo dos desejos reprimidos
um sabor amargo-doce
nos sorrisos receosos ...

Um sentir inconfessável que te abrasa e te magoa
um suspiro que esmorece ...
... te resigna
... te endoidece
nas batalhas que tu perdes contra ti
ao negares a evidência que te assalta

Um sonho breve ...
arrastado na passagem das areias
e deixado nas pegadas
que se extinguem
com o ritmo da maré ...


JCE 02/2011

sábado, 12 de fevereiro de 2011

BASTA-ME A NOITE

Basta-me a noite amor
para o sorriso voltar
depois de perdido andar
nas horas que percorri
em solitário ardor

Basta-me a noite amor
para ver a luz brilhar
e repousar no calor
das conversas ao luar

Basta-me a noite, meu amor
para me pacificar
ao sentir o teu corpo amado
no aconchego dos meus braços
onde ele pertence, enleado

Basta-me a noite amor ...


JCE 02/2011

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

APENAS SENDO ...

Esqueci-me das ausências
quando me ausentei de ti

Pregões distantes sopraram nas nuvens
as chuvas passaram
e os dias continuaram, nos amanheceres

As noites repousam na tranquilidade
da minha alma
sem memórias de vidas distorcidas
apenas sendo ...


JCE 02/2011

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

ABSOLVIÇÃO

No raiar de uma nova aurora
despertas para a revelação
da insuportabilidade
no caminho que já trilhaste

soltas uma lágrima incontida
na percepção embaciada
da chegada
ao ponto onde a luz esmorece ...
e refugias-te.

Apagas a lembrança de ti,
abandonas-te
sem reflexão, amordaças as dores
que infligiste em quem escolheu viver-te,
e que te rasgam
no silêncio,
como navalhas acabadas de afiar


[recuas perante as imagens
insidiosas,
invasivas e acusatórias]


mudas de ser,
camisa lavada sobre cinzas,
destroços esmagados pelo peso do erro
que rejeitas
e embrulhas em papel pardo.

Não és mais aquele,
és um novo ser, pujante na confiança encomendada
distante dos pecados que outros sofreram
ignorante das memórias
que te esforças por não ter.


[Nos silêncios temes a ressurreição
nas ausências inventas intenção.]


Recuperas manifestos de felicidade,
receitas de bem-estar “Al punto”,
que incorporas no quotidiano
incorpóreo
repudiando as incursões do sentir,
quando emergem os resquícios
do teu ontem enterrado

passas pelos dias com impaciente sofreguidão
na procura da confortante distância
mas carregas em ti o receio
permanente
do momento em que a escuridão engolfe
o cansaço.

No despertar do teu ser abandonado
(…ignorado…)
(…esquecido…)
(…repudiado…)
encontras-te perante um ”EU”
que te acusa
de encarnares o que não és
enterrando em ti
o que não mais desejas ser.


[Reconheces-te
e não sabes como fazer
para te aceitares
perante ti.]


Num remoinho esquizoide
de revolta sensitiva
ajoelhas a tua vontade,
derrubas a determinação,
pões de rojo a ilusão.

Encetas um novo percurso
com as cinzas do teu Outro
que se confunde
numa mescla de ti
em busca da absolvição.

Na simbiose
do ontem com o não ser
regressas ao ponto da ruptura
e com a alma despida
abres caminho ao futuro
que te aguarda
indiferente às dores que em ti carregas

descobres, sem surpresa,
sem alegria ou tristeza,
que o destino que te acolhe
é seres tu próprio, nada mais ...


[... acolhes em ti o perdão ...]


JCE 02/2011