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fico suspenso na expectativa

de um pensamento que rasgue o tempo

e me traduza o sonho das árvores



terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

INCONSTÂNCIA


Há palavras que nos surpreendem pelos significados quase antagónicos que assumem.
Esta, que figura como título, é uma delas.

Senão vejamos.

" Significado de Inconstância

n.f.
1. Ausência de constância;
2. Prontidão ou facilidade em alterar ou modificar os seus pontos de vista, atitudes, pensamentos ou emoções; do mesmo significado de leviandade ou instabilidade;
3. Característica daquilo que se encontra vulnerável a mudança;
4. Flexibilidade ou versatilidade."

(in "www.lexico.pt")


É mais ou menos comum pensar-se em Inconstância como algo que pode ser caracterizado por qualquer uma das três primeiras definições do termo que são apresentadas acima, todas elas de pendor ético-moral razoavelmente negativo.

Já a caracterização de "inconstância" como "Flexibilidade" ou "Versatilidade" é pouco comum. Ou, pelo menos, não será tão comum.

Nesta perspectiva, de vermos a inconstância como sinónimo de flexibilidade ou de versatilidade, será linear a aceitação da característica como algo de desejável e, nalguns casos, algo de louvável. Pelo que, ao apelidar-se alguém de "inconstante", dependendo do contexto e da compreensão do termo por quem seja dele alvo, o mesmo assume um carácter elogioso. 

Atente-se, por exemplo, nalguns ambientes sócio-profissionais, onde a versatilidade e/ou a flexibilidade são requisitos bastante comuns para a aceitação da pessoa como membro do grupo ou da organização. 
Seria interessante ver um anúncio de recrutamento onde se pedisse como característica pessoal a "inconstância". Algo do género... "os nossos colaboradores devem ser dotados de elevada capacidade comunicacional, de características adequadas para trabalho em equipa e também serem dotados de um elevado grau de inconstância"... 

A menos que seja um anúncio de recrutamento para cargos políticos ou governamentais, não me parece que a moda pegue...

Bom, o facto permanece. Todos nós somos dotados com uma certa dose de inconstância. Resta saber é qual dos quatro significados possíveis a retrata melhor...


João Carlos Esteves
23/02/2016




 

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

AUSÊNCIA DE MARGENS


inspiro amanheceres impolutos
marcados
pelo silêncio de caminhos vazios

há uma ausência de margens
e um desencontro de veredas quebradas
nesses trilhos
que se propagam em luz imemorial.

intencionalmente
fecho-me ao tempo
e às memórias da luz.



João Carlos Esteves
in "Ausência de Margens"
(Edita-Me Editora, 2015)

(Imagem de José Luís Outono)

domingo, 21 de fevereiro de 2016

ASPIRAÇÃO DE HORIZONTE


tenho nas mãos
a poeira do desassossego.

aspiro a ser horizonte…


João Carlos Esteves
in "Ausência de Margens"
(Edita-Me Editora, 2015)

(Imagem de Armindo Ferreira)


DEMORADAMENTE


em cada madrugada a terra inventa-se
na demanda dos sabores de sal
e aromas de citrinos
que o toque da tua pele revela

nem na pureza do discurso das águas
se transcreve perfeição
como aquela que o teu corpo inspira...

contemplo-te
demoradamente
com uma fome submissa e insaciável
pois não há nada em ti que seja breve


João Carlos Esteves
In “Ausência de Margens”
(Edita-Me Editora, 2015)

(Imagem de Trid Estet)


A CASA DOS VENTOS


somente através dos teus olhos
era possível ver
a luz que saciava a sede de existir,
naquela imagem
nascida de um desejo que era sonho,
de um quase nada que era tudo

e era entre fiapos hesitantes de luz
que se revelava a casa dos ventos,
estuário de nuvens
e ancoradouro de voos imensos


João Carlos Esteves
in "Ausência de Margens" (Edita-Me Editora, 2015)

sábado, 2 de maio de 2015

MARGINÁLIA... "coisas que estão à margem"

Dez autores...
Dez sensibilidades...
Dez formas de sentir e fazer poesia...

MARGINÁLIA...

Lançamento a 30 de Maio de 2015 pelas 15h00
na Fundação José Saramago, em Lisboa

https://youtu.be/udS-jKwT6jg

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Eventuais interessados em adquirir um exemplar autografado do meu livro mais recente, "Inventei-te as Manhãs", poderão efectuar o pedido através do e-mail jcsesteves@yahoo.co.uk ou através de mensagem do facebook: https://www.facebook.com/joaoc.esteves.5

sábado, 26 de janeiro de 2013


NO ALPENDRE DA ESPERA


Aguardei-te
sentado no alpendre da cabana
sem sentir as gotas de chuva que escorriam
pelas rachas da madeira carcomida pelo tempo

entre os sons abafados pela chuva
senti o eco de passos hesitantes
trazidos até mim num aroma de terra humedecida

a tua sombra não surgiu na curva molhada do caminho
mas os teus passos ainda viajavam hesitantes
como aves indecisas em voar.

.Aguardei-te
sentado no alpendre da cabana
enquanto o eco dos teus passos não morreu
na distância
do caminho que afinal te ausentou


João Carlos Esteves, 26/01/2013



sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

NÃO TE VEJO



Não te vejo.
Apenas sinto em mim
o arrepio voraz dos teus cabelos em desalinho
e o véu da tontura nascida do aroma
que as tuas mãos tatuam na minha pele.

Não te vejo.
Apenas visto em mim
a sombra difusa do teu corpo em planície
percorrida ao sabor da brisa que o meu desejo exala
em ânsias de oceano prometido.

Não te vejo.
Apenas guardo em mim
o luar reflectido no suor do teu ardor
gotejado em rebeldia nas margens do amanhecer
como orvalho descoberto nos meus lábios sequiosos.

Não te vejo.
Apenas sou lagoa onde cai teu reflexo
adivinhado nas ondas imparáveis do sentir
que me percorre sem pudor e me desnuda o corpo em luz
como manhã ansiosa por ser dia.


João Carlos Esteves, 18/01/2013